20 de mai. de 2010

Marques Messias

Pra inaugurar o blog, quero fazer uma homenagem ao nosso calango!
Para isso coloquei esse texto do Roberto Drummond


Marques


Lá vai Marques com a bola. Vai sozinho, só ele e Deus. Vai franzino. Vai quase um menino. Vai como um sino tocando; quando Marques pega a bola, é preciso ter fé. É preciso acreditar na festa do gol, é preciso libertar este grito de gol, em seguida ao drible traiçoeiro.

Ah, qual é o mistério de Marques?

Acaso é um guerrilheiro?

É um mágico?

É um anjo de chuteiras?

É um feiticeiro?

Tristes do meu país: alegrai-vos que Marques está com a bola e, quando Marques está com a bola, o milagre acontece.

O que é feio fica bonito.

O que é triste fica alegre.

O que é sem amor ganha um amor.

O que é sem esperança ganha fé.

Quando Marques pega a bola e parte com ela, com a decisão de um craque, os laterais direitos e os zagueiros tremem.

O que você está esperando, lateral-direito?

Espera o drible pela esquerda? Espera o drible pela direita? Espera um nó cego? Espera uma mágica de Marques?

O que impressiona em Marques é o amor e o respeito com que trata a bola.

É como se a bola não fosse uma bola, mas uma flor. Como se, mais do que uma flor, a bola fosse gente. Como se mais do que gente, a bola fosse uma mulher. Como se, mais do que uma mulher, a bola fosse a amada.

Uns chutam a bola com força. Uns chutam com raiva. Chutam com rancor. Chutam sem dó nem piedade. Marques não. Parece que Marques está dizendo aos incrédulos do mundo: numa bola a gente não bate nem com uma flor. O toque da chuteira de Marques tocando a bola é como uma flor tocando.

Marques joga um futebol irmão. Toda a magia feiticeira que põe no drible, correndo pela esquerda como um guerrilheiro de Deus, é em função da solidariedade no futebol.

Não, Marques não tem fome de gols.

Não, Marques não é um fominha.

Ele dribla pelos companheiros de time. Quando cruza a bola, é como se quisesse ensinar a todos nós e aos brasileiros em geral: é preciso ser irmão.

Desesperados do meu país: calai vosso desespero que Marques está com a bola nos pés. Vale viver para ver. Adiai vossos gestos tresloucados que, quando Marques corre com a bola, dá uma vontade de viver, uma vontade de ser bom, uma vontade de fazer o bem sem olhar a quem.

Marques é como um operário jogado, tijolo por tijolo, drible por drible.

Lá vai Marques com a bola. Vai sozinho. Vai como uma locomotiva passando: senhores passageiros do trem da alegria, queiram tomar vossos lugares.





Roberto Drummond

2 comentários: